..::O quebra-cabeça de Luzia

Sabemos que quando os primeiros portugueses chegaram à nossa terra, ela já era ocupada por diferentes povos indígenas. Mas será que esses grupos estiveram aqui desde sempre? Com certeza não. Então, de onde eles vieram? Há quanto tempo estão por aqui? Descobrir a origem do homem na América é um quebra-cabeça para os cientistas. Analisando os vestígios deixados pelos homens pré-históricos que habitaram nosso continente, os pesquisadores buscam pistas sobre o início da pré-história americana.
No Brasil também existem vestígios importantes para o entendimento destas primeiras ocupações. Uma peça deste quebra-cabeça foi recuperada na década de 70, em Minas Gerais com a descoberta de partes do esqueleto de uma mulher que viveu há milhares de anos. Os estudos sobre Luzia - nome dado pelos cientistas ao esqueleto pré-histórico - trazem mais informações e, ao mesmo tempo, fazem com que os pesquisadores formulem novas perguntas sobre o povoamento da América.
Embora haja muito a ser descoberto sobre a ocupação pré-histórica do nosso continente, a maioria dos pesquisadores concorda que a América foi habitada inicialmente por populações que migraram do nordeste da Ásia há mais de 12.000 anos. Mas quem foram eles* Como chegaram até aqui* Quando alcançaram nosso continente*
Para grande parte dos cientistas, a entrada no continente teria ocorrido através do que hoje conhecemos como Estreito de Bering: um pequeno pedaço de mar que separa a região de Vladvostok, na Ásia, da ponta do Alasca, na América do Norte. Quando estes migrantes atravessaram o Estreito, o mundo passava por um período de esfriamento global - também chamado de glaciação e que dura milhares de anos -, o que fez baixar o nível dos mares. Assim, havia uma faixa de terra, como uma ponte, ligando o continente asiático ao americano, através do Estreito de Bering. Essa "ponte" de terra seria o principal caminho pelo qual os primeiros grupos humanos alcançariam o continente. Mas, a possibilidade de uma migração (ou migrações) por mar, não está descartada e cada vez mais pesquisadores levam em conta esta possibilidade.
A época em que se iniciou essa ocupação ainda é motivo de discussão entre os especialistas. Até pouco tempo, acreditava-se que a entrada em nosso continente teria ocorrido há cerca de 12.000 anos e que os primeiros sinais da presença humana seriam os vestígios de grupos caçadores de mamutes, que habitaram a América do Norte há cerca de 11.500 anos.
Uma nova peça
Nos últimos 20 anos, vários pesquisadores vêm sugerindo que a ocupação da América seria mais antiga, mas, há pouco tempo, surgiram provas convincentes. Entre elas está Luzia, cujos estudos trouxeram ainda outras novidades.
No município de Pedro Leopoldo, região de Lagoa Santa, Minas Gerais, um grupo de arqueólogos brasileiros e franceses encontrou, em 1975, partes de um esqueleto em uma gruta chamada Lapa Vermelha IV. As informações iniciais sugeriam que o esqueleto (de uma mulher entre 20 e 25 anos de idade - Luzia) deveria ser muito antigo, mas naquela época não foi possível datar com precisão o material. Mal sabiam os pesquisadores que aquele achado iria remexer as peças já encaixadas dessa história.
Só a partir das pesquisas feitas pelo pesquisador Walter Neves, da Universidade de São Paulo, Luzia teve sua idade revelada. O resultado foi surpreendente: ela tinha vivido em Minas Gerais há 11.500 anos! Essa data, junto com outros vestígios de populações pré-históricas que teriam vivido há mais de 11.000 anos nas Américas do Sul e do Norte, revelou que o povoamento do nosso continente ocorreu antes do que se pensava. Apesar de existir muita discussão sobre o tempo necessário para que todo o continente tenha sido ocupado, a presença de humanos na América do Sul há 11.500 anos, indica que os primeiros migrantes teriam chegado no continente americano há pelos menos 14.000 ou 15.000 anos.
Hoje, muitos cientistas já admitem que a primeira migração deva ter ocorrido entre 15.000 e 20.000 anos. Mas há pesquisadores que admitem até 50.000 anos! Os dados que existem ainda não são suficientes para que possamos chegar a uma conclusão.
Mais novidades!
Depois de medir e analisar crânios de diferentes grupos pré-históricos - entre eles, o de Luzia - os cientistas perderam mais uma certeza: ao contrário de diversas populações indígenas do continente, Luzia e seus colegas possuíam características físicas diferentes das demais populações de indígenas americanas.
Até então, acreditava-se que os primeiros povos que chegaram ao nosso continente teriam características físicas mongolóides. Isto é, a face plana, os olhos "puxados", o nariz pequeno... - traços que teriam surgido há 20.000 ou 30.000 anos nas populações do norte da Ásia. Assim, tanto os primeiros americanos quanto as populações modernas do leste asiático - como chineses, japoneses e coreanos, entre outras - seriam descendentes desses grupos mongolóides e, por isso, seus crânios, ao serem comparados, deveriam apresentar muitas característas em comum.
Só que isso não acontece com Luzia e outros crânios muito antigos de diferentes regiões da América do Sul. Na verdade, ao que parece, suas características físicas aproximam-se de populações africanas e australianas!
Mas isso não quer dizer que Luzia veio da África ou da Austrália. Como já dissemos, o surgimento das características mongolóides se deu, no máximo, há 30.000 anos. Antes disso, parte das populações asiáticas ainda possuía muitas características em comum com as populações que migraram para a Austrália (por volta de 50.000 anos atrás) e com populações africanas, ancestrais de ambas.
As características de Luzia, portanto, obrigaram os pesquisadores a considerar uma migração por grupos não mongolóides, os quais, provavelmente, foram os primeiros a povoar o continente.
Depois de todas essas novidades, a nova teoria de povoamento da América é a seguinte: há pelo menos 15.000 anos, grupos de origem asiática, sem características tipicamente mongolóides chegaram à América pela região do Estreito de Bering. Depois deles, por volta de 12.000 anos, grupos com características mongolóides alcançaram o continente e deram origem à maioria das populações indígenas do continente americano.
Como se vê, Luzia trouxe novas respostas... Mas também novas perguntas! Será que as populações mongolóides e aquelas com os mesmos traços de Luzia se encontraram alguma vez? Será que houve mistura dessas populações? Há quanto tempo exatamente os ancestrais de Luzia cruzaram o Estreito de Bering? Com tantos enigmas, pode-se afirmar que o quebra-cabeça não se completou. Ainda há peças espalhadas por aí.

Fonte Virtual:
Revista Ciência Hoje
www.cienciahoje.uol.com.br
Ciência Hoje das Crianças 102, maio 2000
Claudia Rodrigues
Museu Nacional / UFRJ


O rosto de Luzia



O rebuliço e agitação entre cientistas e jornalistas por conta do crânio de Luzia despertaram uma curiosidade: como seria o rosto dela? Uma TV inglesa que, em 1999, produzia um documentário sobre o tema resolveu buscar a reconstituição da face de Luzia. No Rio de Janeiro, usando computadores, foi feita uma cópia "virtual" do crânio . As informações foram passadas para um computador especial na Inglaterra que esculpiu uma cópia do crânio em resina idêntica ao encontrado em Minas Gerais. A partir dessa cópia, um especialista inglês em reconstituição modelou em argila o rosto que Luzia deve ter tido. Como os cientistas já previam, Luzia ficou com feições muito mais próximas das populações africanas e australianas do que de populações orientais atuais.



A reconstituição, no entanto, não é perfeita. As orelhas e lábios, por exemplo, foram concebidos livremente pelo escultor - que seguiu, é claro, padrões comuns na população. O queixo também pode não estar muito fiel. Quem sabe daqui a alguns anos a tecnologia nesse setor avance e seja possível refazer o rosto de Luzia com maior precisão? Por enquanto, os curiosos em conhecer essa nossa ancestral podem lhe fazer uma visita no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Embora o crânio de Luzia seja exposto apenas em ocasiões especiais, a face reconstituída e a réplica que serviu de suporte para a reconstituição fazem parte da exposição permanente do Museu.