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haja muito a ser descoberto sobre a ocupação pré-histórica
do nosso continente, a maioria dos pesquisadores concorda que
a América foi habitada inicialmente por populações
que migraram do nordeste da Ásia há mais de 12.000
anos. Mas quem foram eles* Como chegaram até aqui* Quando
alcançaram nosso continente*
Para grande parte dos cientistas, a entrada no continente teria
ocorrido através do que hoje conhecemos como Estreito de
Bering: um pequeno pedaço de mar que separa a região
de Vladvostok, na Ásia, da ponta do Alasca, na América
do Norte. Quando estes migrantes atravessaram o Estreito, o mundo
passava por um período de esfriamento global - também
chamado de glaciação e que dura milhares de anos
-, o que fez baixar o nível dos mares. Assim, havia uma
faixa de terra, como uma ponte, ligando o continente asiático
ao americano, através do Estreito de Bering. Essa "ponte"
de terra seria o principal caminho pelo qual os primeiros grupos
humanos alcançariam o continente. Mas, a possibilidade
de uma migração (ou migrações) por
mar, não está descartada e cada vez mais pesquisadores
levam em conta esta possibilidade.
A época em que se iniciou essa ocupação ainda
é motivo de discussão entre os especialistas. Até
pouco tempo, acreditava-se que a entrada em nosso continente teria
ocorrido há cerca de 12.000 anos e que os primeiros sinais
da presença humana seriam os vestígios de grupos
caçadores de mamutes, que habitaram a América do
Norte há cerca de 11.500 anos.
Uma nova peça
Nos últimos 20 anos, vários pesquisadores vêm
sugerindo que a ocupação da América seria
mais antiga, mas, há pouco tempo, surgiram provas convincentes.
Entre elas está Luzia, cujos estudos trouxeram ainda outras
novidades.
No município de Pedro Leopoldo, região de Lagoa
Santa, Minas Gerais, um grupo de arqueólogos brasileiros
e franceses encontrou, em 1975, partes de um esqueleto em uma
gruta chamada Lapa Vermelha IV. As informações iniciais
sugeriam que o esqueleto (de uma mulher entre 20 e 25 anos de
idade - Luzia) deveria ser muito antigo, mas naquela época
não foi possível datar com precisão o material.
Mal sabiam os pesquisadores que aquele achado iria remexer as
peças já encaixadas dessa história.
Só a partir das pesquisas feitas pelo pesquisador Walter
Neves, da Universidade de São Paulo, Luzia teve sua idade
revelada. O resultado foi surpreendente: ela tinha vivido em Minas
Gerais há 11.500 anos! Essa data, junto com outros vestígios
de populações pré-históricas que teriam
vivido há mais de 11.000 anos nas Américas do Sul
e do Norte, revelou que o povoamento do nosso continente ocorreu
antes do que se pensava. Apesar de existir muita discussão
sobre o tempo necessário para que todo o continente tenha
sido ocupado, a presença de humanos na América do
Sul há 11.500 anos, indica que os primeiros migrantes teriam
chegado no continente americano há pelos menos 14.000 ou
15.000 anos.
Hoje, muitos cientistas já admitem que a primeira migração
deva ter ocorrido entre 15.000 e 20.000 anos. Mas há pesquisadores
que admitem até 50.000 anos! Os dados que existem ainda
não são suficientes para que possamos chegar a uma
conclusão.
Mais novidades!
Depois de medir e analisar crânios de diferentes grupos
pré-históricos - entre eles, o de Luzia - os cientistas
perderam mais uma certeza: ao contrário de diversas populações
indígenas do continente, Luzia e seus colegas possuíam
características físicas diferentes das demais populações
de indígenas americanas.
Até então, acreditava-se que os primeiros povos
que chegaram ao nosso continente teriam características
físicas mongolóides. Isto é, a face plana,
os olhos "puxados", o nariz pequeno... - traços
que teriam surgido há 20.000 ou 30.000 anos nas populações
do norte da Ásia. Assim, tanto os primeiros americanos
quanto as populações modernas do leste asiático
- como chineses, japoneses e coreanos, entre outras - seriam descendentes
desses grupos mongolóides e, por isso, seus crânios,
ao serem comparados, deveriam apresentar muitas característas
em comum.
Só que isso não acontece com Luzia e outros crânios
muito antigos de diferentes regiões da América do
Sul. Na verdade, ao que parece, suas características físicas
aproximam-se de populações africanas e australianas!
Mas isso não quer dizer que Luzia veio da África
ou da Austrália. Como já dissemos, o surgimento
das características mongolóides se deu, no máximo,
há 30.000 anos. Antes disso, parte das populações
asiáticas ainda possuía muitas características
em comum com as populações que migraram para a Austrália
(por volta de 50.000 anos atrás) e com populações
africanas, ancestrais de ambas.
As características de Luzia, portanto, obrigaram os pesquisadores
a considerar uma migração por grupos não
mongolóides, os quais, provavelmente, foram os primeiros
a povoar o continente.
Depois de todas essas novidades, a nova teoria de povoamento da
América é a seguinte: há pelo menos 15.000
anos, grupos de origem asiática, sem características
tipicamente mongolóides chegaram à América
pela região do Estreito de Bering. Depois deles, por volta
de 12.000 anos, grupos com características mongolóides
alcançaram o continente e deram origem à maioria
das populações indígenas do continente americano.
Como se vê, Luzia trouxe novas respostas... Mas também
novas perguntas! Será que as populações mongolóides
e aquelas com os mesmos traços de Luzia se encontraram
alguma vez? Será que houve mistura dessas populações?
Há quanto tempo exatamente os ancestrais de Luzia cruzaram
o Estreito de Bering? Com tantos enigmas, pode-se afirmar que
o quebra-cabeça não se completou. Ainda há
peças espalhadas por aí.
Fonte
Virtual:
Revista Ciência Hoje
www.cienciahoje.uol.com.br
Ciência Hoje das Crianças 102, maio 2000
Claudia Rodrigues
Museu Nacional / UFRJ
O rosto de Luzia

O rebuliço e agitação entre cientistas e
jornalistas por conta do crânio de Luzia despertaram uma
curiosidade: como seria o rosto dela? Uma TV inglesa que, em 1999,
produzia um documentário sobre o tema resolveu buscar a
reconstituição da face de Luzia. No Rio de Janeiro,
usando computadores, foi feita uma cópia "virtual"
do crânio . As informações foram passadas
para um computador especial na Inglaterra que esculpiu uma cópia
do crânio em resina idêntica ao encontrado em Minas
Gerais. A partir dessa cópia, um especialista inglês
em reconstituição modelou em argila o rosto que
Luzia deve ter tido. Como os cientistas já previam, Luzia
ficou com feições muito mais próximas das
populações africanas e australianas do que de populações
orientais atuais.
A reconstituição, no entanto, não é
perfeita. As orelhas e lábios, por exemplo, foram concebidos
livremente pelo escultor - que seguiu, é claro, padrões
comuns na população. O queixo também pode
não estar muito fiel. Quem sabe daqui a alguns anos a tecnologia
nesse setor avance e seja possível refazer o rosto de Luzia
com maior precisão? Por enquanto, os curiosos em conhecer
essa nossa ancestral podem lhe fazer uma visita no Museu Nacional,
no Rio de Janeiro. Embora o crânio de Luzia seja exposto
apenas em ocasiões especiais, a face reconstituída
e a réplica que serviu de suporte para a reconstituição
fazem parte da exposição permanente do Museu.
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